Casos de feminicídio aumentam devido ao isolamento social

Beatriz Ferrão - Publicado 19 de Oct de 2020 às 21:10
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De acordo com o Anuário de Segurança Pública, feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado nesta segunda-feira (19), as mortes em decorrência da violência contra mulher, voltaram a crescer no 1º semestre de 2020 em todo o país. Cerca de 1.890 mulheres foram mortas de forma violenta, um aumento de 2% comparado ao mesmo período no ano anterior. Foram registrados 119.546 casos de lesão corporal dolosa em decorrência de violência doméstica, 11% a menos que no primeiro semestre de 2019.

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Em março, com a quarentena começando a partir da última semana do mês, o número de denúncias tinha avançado quase 18% e, em fevereiro, 13,5%, na mesma base de comparação. Já em abril, quando começou de fato o isolamento social devido à pandemia, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas através do canal 180 deu um salto. Tendo um aumento de quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

O número de mulheres assassinadas por crime de gênero em 2019 aumentou 7,3% em relação a 2018, o que totaliza em 1314 casos de feminicídio no Brasil no ano passado. Os dados foram contabilizados pela plataforma Monitor da Violência do portal G1, que recebeu os números das Secretarias de Segurança Pública dos estados.


Christina Ricci, que ficou famosa por “A Família Addams, entrou na justiça americana contra seu marido alegando agressão na residência do ex-casal. (Foto:Reprodução/Webtudo)


Casos de violência doméstica durante a quarentena

A cantora Duda Duarte, de apenas 22 anos, que atualmente é uma das vozes que representa o sertanejo em Goiás, sofreu agressões de seu marido, o piloto Rafael Dornelas de 31 anos. As agressões ocorreram na última segunda-feira (12), por volta das 18h. Duda estava com sua filha recém nascida no colo, mas mesmo assim Rafael desferiu golpes contra sua esposa e, consequentemente, alguns acertam a pequena Tatá que possui apenas 50 dias de vida, deixando-lhe com um hematoma no braço. Tentativas de enforcamento e ameaças de morte ocorreram no ato da agressão. Por conta dos gritos, os vizinhos do casal se dirigiram até a porta da casa para verificar o que estava acontecendo e acionaram a polícia.

Logo em seguida, Rafael fugiu do local deixando sua esposa e a filha presas dentro da residência. Algum tempo após a fuga do piloto, Duda conseguiu sair de casa e com a ajuda das pessoas que estavam no local, acionou a polícia e os acompanhou até a delegacia para prestar queixa.  Logo após acionar o serviço militar e saírem à procura do acusado, ele foi localizado e detido imediatamente. Ademais, Rafael permanece preso no CIOPs 1°DP do Estado de Goiás. O advogado de Rafael entrou com pedido de liberdade provisória, mas até o momento não se tem informações sobre a decisão do juiz.

Outro caso envolvendo violência doméstica durante o isolamento social, foi o da atriz, Christina Ricci, que ficou famosa por “A Família Addams” e “Gasparzinho: Um Fantasminha Camarada”, ela conseguiu na justiça americana uma ordem de restrição contra seu marido, James Heerdegen, alegando agressão na residência do ex-casal. De acordo com o site TMZ, a polícia foi chamada para a casa de Christina e James por conta de uma briga entre eles, que resultou no caso de violência doméstica contra a artista. Eles se conheceram em 2011, após trabalharem juntos na série “Panam”. A relação foi oficializada em 2013, em Nova York. Eles têm um filho juntos, Freddie, de 5 anos.

Também de acordo com o site TMZ, a atriz contratou a advogada Samantha Spector, a mesma profissional que lidou com a separação de Amber Heard e Johnny Depp. Jenna Dawn, especialista em casos envolvendo violência doméstica e guarda de crianças, também está envolvida no caso e do lado de Ricci. Na documentação apresentada em um tribunal de Los Angeles, Christina afirmou ter “diferenças irreconciliáveis” com James para solicitar o divórcio. Além disso, pediu a guarda de Freddie, de forma unilateral. Apesar do chamado, James não foi preso, mas os policiais garantiram a ordem de restrição, impedindo que ele entrasse em contato com Christina por qualquer meio.


Bom dia, Verônica”, retrata temas como violência doméstica e abuso sexual (Foto:Reprodução/Streamingsbrasil)


Quando a ficção se inspira na realidade

Sucesso na plataforma de streaming na Netflix, a série “Bom dia, Verônica”, retrata temas como violência doméstica e abuso sexual. Em um espaço dominado por homens, Verônica (Tainá muller) encara uma luta contra a violência contra a mulher e o abuso sexual, temas de grande relevância na série e na vida real. No Brasil, não há quem não tenha pelo menos ouvido um caso de violência contra a mulher. Se não presenciou, pelo menos soube de uma parente, uma avó, uma tia ou uma vizinha”, afirma Tainá muller.

A atriz ressalta ainda o aumento de violência doméstica e feminicídio durante a pandemia, onde as mulheres acabam sendo obrigadas a ficar mais tempo com seus agressores e têm dificuldade de fazer denúncia. “Tenho visto muito, nas minhas redes sociais, o desdobramento desse debate. A série não se encerra na série, naquela história ficcional. Há mulheres de ONGs apontando o que ali na produção tem como a escala da violência dentro de casa, tem gerado muitos debates. E isso é muito bacana”, acrescenta.

O curta Lockdown - Não Tem Vacina, gravado remotamente, também discute como a pandemia se tornou um agravante para uma situação crônica que muitas mulheres enfrentam no Brasil. O curta-metragem teve sua estreia em setembro, onde foi distribuído nas plataformas da atriz, cantora e produtora Cleo, o “Cleo on Demand”, voltado para a diversidade e o empoderamento.

Ele mostra como a violência se apresenta de diversas formas, até nas mais sutis, na vida das vítimas, independentemente de classe social. Mesmo em fase de finalização, o projeto já foi convidado para 24th Brazilian Film Festival of Miami, idealizado pela Inffinito Braff. "O intuito é causar desconforto, confusão e dúvida quanto ao que está acontecendo. Sentimentos que, muitas vezes, vítimas da violência vivem. Queremos, com o curta, alcançar pessoas que não estão acostumadas a discutir o tema, com o intuito de ajudá-las a identificar o que é violência doméstica", justifica a diretora da produção Daila Ferreira em entrevista ao Terra.

"É um grito de socorro, um manifesto em relação ao processo de violência contra a mulher. Mais especificamente na pandemia. Eu fui vítima de violência doméstica e milito desde esse processo. A gente até agora tem uma flexibilização da quarentena e uma vacina para ser aprovada, mas a violência contra a mulher não tem vacina. Só a conscientização mesmo", acrescenta. 

Outro sucesso envolvendo a violência contra mulher, é a novela “amor sem igual” da emissora Record. Onde a atriz Michelle Batista dá vida a personagem Maria Antônia, que além de sofrer bipolaridade, passou por uma delicada situação de violência e estupro ao longo da trama. Se minha personagem na novela puder ajudar algumas mulheres, eu fico muito feliz. O apoio de outras mulheres é fundamental em situações assim”, relata Michelle.


Agora no aplicativo Magalu, vítimas de violência sexual conseguem denunciar de forma mais discreta, sem que o agressor perceba. (Foto:Reprodução/MagazineLuiza)


 Campanhas se unem para combater a violência contra mulher

Essa estatística fez com que até empreendimentos da iniciativa privada e autoridades, se mobilizassem para criação de redes de denúncia. Seja com um X vermelho de batom feito na mão, vídeo fake de automaquiagem ou botão pânico no aplicativo de compras online. Como é o caso do Magazine Luiza, onde pelo próprio aplicativo, vítimas de violência sexual conseguem denunciar de forma mais discreta, sem que o agressor perceba.

Outra iniciativa é o aplicativo “Proteção Mulheres”, criado em junho desse ano, pelo Ministério Público Estadual de Alagoas (MPAL). Onde está disponível para ser baixado nas plataformas Android e IOS. Através do canal do YouTube do órgão ministerial. No aplicativo, idealizado pelos Núcleos de Defesa da Mulher e de Direitos Humanos, e desenvolvido pela Diretoria de Tecnologia e Informação (DTI) do Ministério Público, a vítima consegue encontrar informações importantes nos canais de comunicação do MPAL, como endereço, telefone, e-mails, horário de atendimento e quais são as promotorias de justiça que têm essa atribuição.

 

Nova lei sancionada durante a pandemia da Covid-19

Cabe ressaltar que a Lei 14.022/20, sancionada em julho deste ano durante a pandemia de Covid-19. Assegura o pleno funcionamento de órgãos de atendimento a mulheres, crianças, adolescentes, pessoas idosas e cidadãos com deficiência vítimas de violência doméstica ou familiar. De acordo com a lei, o atendimento às vítimas é considerado serviço essencial e não poderá ser interrompido enquanto durar o estado de calamidade pública causado pelo novo coronavírus.

Denúncias recebidas nesse período pela Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Ligue 180) ou pelo serviço de proteção de crianças e adolescentes com foco em violência sexual (Disque 100) deverão ser encaminhadas às autoridades em até 48 horas. Além de obrigar, em todos os casos, o atendimento ágil às demandas que impliquem risco à integridade da mulher, do idoso, da criança e do adolescente, o texto exige que os órgãos de segurança criem canais gratuitos de comunicação interativos para atendimento virtual, acessíveis por celulares e computadores.

O atendimento presencial será obrigatório para casos que possam envolver: feminicídio; lesão corporal grave ou gravíssima; lesão corporal seguida de morte; ameaça praticada com uso de arma de fogo; estupro; crimes sexuais contra menores de 14 anos ou vulneráveis; descumprimento de medidas protetivas; e crimes contra adolescentes e idosos.

 

(Foto destaque: Casos de feminicídio aumentam devido ao isolamento social. Reprodução/Pinterest)

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