“The Boys” continua mais sangrenta e com cenas de luta girl power fechando o arco da segunda temporada

Publicado 09 de Oct de 2020 às 15:38

Inspirado numa das HQs mais abusiva e polêmica da história. Garth Ennis fez de The Boys uma história que veio para destruir todo e qualquer padrão social que o universo de heróis já construiu há décadas e décadas. Como trazer isso para a TV? A tarefa era quase instransponível, mas nunca impossível. Seth Roger, Evan Goldberg e Eric Kripke adaptaram a sátira de Ennis para o serviço de streaming Amazon Prime Video.

A primeira temporada veio causando surpresas em 2019. The Boys mostra como seres superpoderosos agiriam no mundo real, satirizando histórias como da Liga da Justiça e dos Vingadores. As HQs foram publicadas entre 2006 e 2008 pela Dynamite Entertainment e, segundo o The New York Times, tornou-se líder nas vendas.

Tudo começa quando o jovem Hughie Campbell (Jack Quaid) assiste ao assassinato repentino e de forma brutal de sua namorada por um “super”. O herói tem a hipervelocidade e, quando não a vê, ele simplesmente estraçalha a garota deixando Hughie apenas segurando as duas mãos da namorada ficando todo ensanguentado.

Aí a saga começa...


Poster de divulgação da segunda temporada. (Reprodução/Amazon)


CUIDADO! A partir daqui o texto terá spoilers da 2ª temporada

Leia mais: "Meus heroís morreram de overdose", não é Cazuza, é a série "The Boys"

Vamos deixar um pouco de mão a primeira temporada e ir para a segunda. A Amazon liberou nesta última quinta-feira (08 de outubro) o oitavo e último episódio da segunda temporada. E que episódio. Um dos melhores até aqui. A presença girl power entre Kimiko (Karen Fukuhara), Rainha Maeve (Dominique McElligott) Luz Estrela/Annie January (Erin Moriarty) e Tempesta (Aya Cash) é uma cena consagrada. A afirmação de Francês (Tomer Kapon), “acho que as meninas dão conta”, é um hino à força e ao poder feminino tão subjugado na cultura pop e no cinema.

As girl power “supers” entre heroínas e vilãs, nos fazem levantar a questão: quem é herói e quem é vilão? Vemos que o fato de um superpoder, que características que desafiam a capacidade humana e que a injeção de um soro misterioso não classifica quem é bom e quem é mal. Com metáfora direta a Capitão América: O Primeiro Vingador, não é o homem mais forte do mundo que vai nos salvar, mas aquele que tiver bom coragem e coragem acima de tudo.

O que Tempesta, Kimiko, Luz Estrela e Rainha Maeve fazem no último episódio da segunda temporada é, nada menos que corrigir o que Avengers tentou, mas não conseguiu em Infinity War e em Endgame. The Boys desafia a normalidade construída pelos super-heróis padronizados em estereótipos de cor, raça, nação, sexualidade, e poder financeiro.


Cena do episódio final em que "os meninos" enfrentam a iminência de uma guerra. (Reprodução/Amazon)


O impacto causado pela sátira exagerada da primeira temporada foi o bastante para conquistar-nos. Vemos um herói dos oceanos sendo acusado de abuso sexual e machismo contra uma mulher. Pera aí, isso é ser um super-herói? Um herói de verdade não deveria lutar contra esses crimes de abuso e de violação humanos?

Billy Bruto (Karl Urban), Hughie, Francês, Kimiko e Leitinho (Laz Alonso) se revoltam contra a empresa do composto V da Vought (vemos aí uma ideologia semelhante à Hydra? Talvez). Mas a Vought se revela muito mais corrupta agora quando revela que nem todos nasceram para serem heróis, poderosos e fortes. Nesse mundo há os que nasceram com estrelinha na testa, e há os que nasceram para sofrer e até morrer, se for preciso.

A segunda temporada investe mais numa jornada de busca de identidade atrelada à vingança, à justiça, à boa conduta e à felicidade de se viver num país mais honesto. Os “meninos” – vulgo, vilões da história – se revoltam com a política heroica dos “supers” e embarcam numa jornada com o objetivo de desmantelar a política suja que putrefaz a sociedade.

A primeira grande virada da série, ao responder essa questão é revelada com Hughie e Kimiko. Dois seres “deslocados” do grupo. Enquanto o primeiro começa a entender que precisa retomar seu caminho de onde parou, vencer o luto e caminhar com as próprias pernas, a segunda percebe que o ódio e a vingança nunca preencherão o vazio que a corrói. Ser herói é mais que isso: antes de salvar alguém ou o mundo, é preciso se certificar de que estamos salvos de nós mesmos.

Segundo, “um herói não se nasce, mas é feito”. O escândalo do composto V revelado ao mundo. No entanto, não é um soro do supersoldado e nem um composto poderoso que irá te classificar como um super-herói. Ele só vai te dar força e poder, mas caráter, coragem, amor e confiança, isso vem de berço e se fortalece aos poucos no dia a dia.

Becca Butcher (Shantel VanSanten), esposa de Billy, que tem seu ciclo encerrado nessa temporada, morre deixando um ensinamento muito importante: “ele foi criado com amor e ensinado a amar”, afirma referindo-se ao filho Ryan (Cameron Crovetti) que teve fruto de estupro com o Capitão Pátria (Antony Starr). Então, terceiro, um herói é feito, sobretudo de amor. Amor gera empatia e empatia, alteridade.

Essa jornada de busca pessoal e de constructo identitário também pega os Sete de surpresa. Enquanto o Capitão Pátria tenta se descobrir com a ausência de Madelyn Stillwell (Elisabeth Shue), seu contato paterno e de esforço familiar com o filho Ryan vai de mal a pior. O desejo de se ter uma família perfeita e de “supers” cega-lhe os olhos e termina de forma trágica.

Enquanto isso, Profundo (Chace Crawford) tenta se redimir do ato de machismo e Rainha Maeve é revelada como gay ao descobrir sua ligação com uma antiga amiga. Parece que um super-herói não é perfeito. Ele tem dramas não só familiares, mas também de relação. Vive crises de identidade e de sentido de vida. Toma mais e mais quebras de estereótipos. Essa ideologia é doente, perversa e discriminatória, sem falar de segregacionista. Ela divide bons e maus como se tivesse autoridade para isso. Heróis tem defeitos, e um deles é se sentir superior a outros seres humanos. A linha tênue entre vilão e herói é muito mais torta do que se possa imaginar.

 

(Foto destaque: Cena final das girl power em confronto na segunda temporada de The Boys. Reprodução/Amazon)

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