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Exclusivo: Carol Santiago conta sobre Tokyo, medalhas de ouro e expectativas para Paris

A nadadora paralímpica Carol Santiago, conversou com o Portal Lorena R7 sobre seu desempenho em Tokyo, preparação para Paris, dificuldades da vida e suas expectativas para o futuro.

3 min de leitura
26 Set 2021 - 18h34 | Atulizado em 26 Set 2021 - 18h34

Carol Santiago entrou para história após conquistar 3 ouros em Tokyo. A nadadora ainda conquistou uma prata e um bronze.Em sua estreia em paralimpíadas, a atleta natural de Recife, se tornou a atleta brasileira com mais medalhas em uma única edição do torneio. Além disso, Carol quebrou uma escrita de 17 anos sem mulheres brasileiras no topo do pódio em paralimpíadas pela natação, a última brasileira havia sido Fabiana Sugimore, em Atenas 2004.

O primeiro ouro conquistado veio na prova dos 50m livre da classe S13 (para deficientes visuais), com direito a quebra do recorde olímpico (26s82), e o segundo na disputa dos 100m livres S12, o terceiro veio com um novo recorde Paralímpico, com a marca de 1min14s89, na final dos 100m peito da classe SB12 (para atletas com deficiências visuais).  Carol também conquistou o bronze nos 100m costas e prata no revezamento 4x100m livre misto. 


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                            Carol Santiago posa com suas 5 medalhas conquistadas em Tokyo. (Foto: Ale Cabral/ CPB)


A atleta brasileira com mais medalhas de ouro em uma única edição de paralimpíadas, Carol Santiago, deu uma entrevista exclusiva para o Portal Lorena R7. Confira!

 

Primeiramente, quero começar agradecendo pela oportunidade. Qual é a sensação de subir três vezes no lugar mais alto do pódio e ouvir o hino brasileiro?

É uma sensação incrível, podemos usar várias palavras, e mesmo assim não vamos ser fiéis ao que a gente sente lá. Cada prova minha foi uma experiência diferente, tem sua história e foi importante para mim. A gente saiu de lá com programa vencedor, programa de 3 medalhas de ouro, uma de prata e outra de bronze. Quando recebi o primeiro ouro, e disseram na entrevista, que era o primeiro ouro de uma brasileira na natação, depois de 17 anos, aquilo ali teve um peso para mim, que eu até tive que tentar lidar de uma forma mais tranquila durante a competição. Depois dos 3 ouros, a gente conseguiu ser a maior medalhista de ouro numa mesma edição das Paraolimpíadas, então é muito gratificante, uma sensação de dever cumprido, de que tudo valeu a pena, a minha comissão técnica toda, meu técnico, nós estamos muito felizes e agora estamos tendo dimensão de tudo que fizemos.

 

Como foi disputar a primeira paraolimpíada aos 36 anos? Em algum momento da vida, achou que não fosse conseguir realizar esse sonho?

Eu acredito que tem seus benefícios e suas dificuldades, ter 36 anos e estar disputando a primeira paraolimpíada, para mim é incrível, é o maior evento do paradesporto no mundo. Ter 36 anos me deixa uma pessoa muito mais madura para lidar com todas as situações, com os momentos bons e os mais difíceis, e saber contornar aquilo tudo para tirar o melhor resultado. Mas por outro lado, eu tenho que tomar muito cuidado com a minha recuperação, com todas as etapas para entrar e sair de uma prova e outra. A gente fez um programa muito extenso, com 6 provas, então foi bastante. Eu acredito que, pensar que seria não seria possível, eu não pensei, mas tiveram alguns momentos difíceis em minha preparação em que eu tive que avaliar e tentar resolver coisas para tentar chegar competitiva da forma que chegamos em Tokyo. Desses momentos, um que teve grande importância foi o Campeonato Mundial, logo em seguida do Parapan, porque ali foi a primeira vez que competi nesse nível internacional, então eu pude avaliar alguns pontos meus que eu precisava trabalhar, para poder chegar em Tokyo e ter uma performance que me garantisse a competitividade pelo ouro. Então, quando eu saí do Mundial, eu sabia que tinha que fazer uma preparação psicológica, assim como fazia preparação física, sabia que tinha que olhar para mim como uma atleta mulher e organizar toda a minha parte de variação hormonal que tinha e foi isso que eu fiz.

 

Você foi a maior vencedora entre os 260 atletas brasileiros que viajaram para Tokyo. Esperava uma estreia tão vencedora?

Nós sabíamos da dificuldade que seria, é muito difícil você estar participando de 10 dias de competição e chegar no seu último dia e conseguir performar uma marca muito boa e até mesmo estar conquistando uma medalha de ouro. Cada prova minha tinha uma adversária direta diferente e eu sabia que cada uma estava treinando especificamente para as provas e eu sabia que não era uma competição que a gente estava buscando um recorde mundial, pois eu tinha eu focar em dar minha melhor performance em todas as provas. Eu sabia que o foco, na verdade, era a resistência de prova para que eu pudesse estar dando um tempo que fosse possível estar brigando pela medalha de ouro. Quando a gente entendeu que isso era possível, começamos a treinar e fazer todas as rotinas nos treinamentos. Estávamos sem competição, mas a nossa comissão técnica, o meu técnico Leonardo, ele conseguiu realizar uma forma em que nós conseguíamos levar pelo menos aquele dia a dia da competição para os treinos. Nós tínhamos a utilização dos placares, fase classificatória e final à tarde, a gente sabe que não era a mesma pressão da competição, mas isso me fez chegar muito preparada. A medida que eu fazia isso fisicamente, eu me preparava psicologicamente, tanto para os resultados bons, quanto para os difíceis. Eu esperava isso que eu tive, chegar lá com todas as condições físicas e psicológicas para estar disputando o ouro, mas agora, se ia ser a medalha de ouro realmente, só tinha como saber depois de nadar, pois as meninas vão tão bem preparadas quanto eu, então a gente queria chegar lá como chegamos e ainda bem que conseguimos sair com um programa tão vencedor.

 

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Aos 19 anos, devido ao acúmulo de água na retina, você ficou completamente cega por 9 meses. Se curou, mas abandonou o esporte. Só voltou a frequentar uma piscina anos depois, quando tinha 27. O que a fez voltar?

Aos 19 anos eu fiz acúmulo de líquido na retina, na verdade eu fiz em várias etapas na minha vida. Isso era algo que me atrapalhava muito. Naquele momento tinha sido a primeira vez e fiquei 9 meses sem enxergar absolutamente nada, depois eu tive uma redução na minha capacidade visual, mas não completa, mas não fiquei cega mais de 9 meses. A minha volta ás piscinas foi muito ligada ao fato de a natação ser a coisa mais importante na minha vida, é praticando a natação que eu me sinto realizada, isso tem uma ligação para mim com felicidade. Eu sou muito competitiva, então quando eu voltei, não foi só para praticar, eu queria estar competindo, queria ser rápida e minha vida toda foi assim, então na verdade, esse meu retorno, ele tem muito a ver com felicidade, eu me sentir realizada.

 

Quais são as dificuldades dos atletas paralímpicos no dia a dia de treinos?

O treinamento do atleta paralímpico é bem semelhante ao do atleta olímpico, estamos tentando ver a deficiência do atleta como sendo apenas uma característica dele, não uma coisa que irá determinar como vai ser a vida dele, mas algo que seja uma característica dele, que irá classificar ele para que possa competir. Os treinamentos de alto rendimento são difíceis, ele te desafia a querer ser melhor todos os dias, você estar disposto a passar por aquilo para ser um atleta mais rápido, mais eficiente. Acredito que as dificuldades do dia a dia elas são muito semelhantes ao treinamento de alto rendimento de um atleta convencional, mas que temos essas características que precisam de alguma sensibilidade voltadas para ela. No meu caso, eu faço a utilização do PAPER, então eu preciso que tenha uma pessoa lá que nas minhas séries fortes, para estar virando na minha posição correta de nado, estar chegando correta na piscina, que é o que irei fazer na prova, então são só essas particularidades que dependem de cada um e de suas deficiências.

 

Para finalizar, teremos Carol Santiago em Paris 2024? Quais são suas expectativas para o próximo ciclo paralímpico?

Desde a minha última prova que eu tenho conversado com meu técnico e tenho dito a ele o quanto para mim será importante estar em Paris. Essa é uma conversa que estou tendo com eles desde antes de Tokyo, pois eu queria participar de uma Paralimpíada que tivesse uma preparação menos conturbada, pois essa preparação foi tão difícil por conta do COVID e também que eu pudesse sentir o que é participar de um Paralimpíada com público presencial. Eu já vinha conversando sobre isso, pedindo para eles me avaliarem para ver a possibilidade de estarmos tão competitivos em Paris daqui a 3 anos quanto e Tokyo, a resposta deles foi unânime, que a gente consegue sim. A única coisa que meu técnico não sabe me dizer é se a gente vai fazer um programa tão extenso como fizemos aqui em Tokyo. Provavelmente estaremos sim em Paris, é o que eu quero, estou 1 mês de férias, volto a treinar dia 5 de outubro, para estarmos traçando como será essa preparação, como vão ser os 3 anos e estar cumprindo isso aí até Paris, para chegarmos lá o máximo preparados possível e para tentar conquistar a medalha de ouro.

 

Foto Destaque: Carol Santiago. Reprodução. Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

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