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Netflix e a corrida para superar a Disney nas animações

A Netflix esta apostando muito no mercado das animações para família, e tem pretensão de superar a própria Disney neste ramo. Saiba como a gigante do streaming pretende alcançar tal feito.

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01 Nov 2020 - 09h04 | Atulizado em 01 Nov 2020 - 09h04

Quando o público pensa em animação, é difícil não lembrar do castelo da Disney se iluminado. A criadora do Mickey é uma gigante no assunto, tento um impacto cultural que reverbera por gerações, e criando referências globais. Hoje é sétima marca mais valiosa do mundo, de acordo com a revista Forbes, e as animações têm grande parcela de participação nessa trajetória. Mas conforme o tempo passa, a concorrência por essa que é uma das áreas mais cobiçadas dos grandes estúdios, só aumenta.

Foi desenhando Mickey Mouse e aperfeiçoando técnicas de animação que o estúdio do ratinho entrou no caminho para se tornar o império que é hoje. Porém com o rápido crescimento da indústria do audiovisual, e a popularidade dos streamings de vídeo, o surgimento de animações cada vez mulheres, vem crescendo exponencialmente. E segundo o cofundador da NetflixReed Hastings, a empresa tem como objetivo superar a Walt Disney Studios, neste gênero, e colocar a plataforma no topo da produção de animações.

Em uma entrevista ao The Hollywood Reporter, Hastings comentou sobre a grandiosa intenção do serviço de streaming: desbancar a Disney em animações para a família. No entanto, ele admitiu também que isso ainda vai demorar um pouco para acontecer. “Nós queremos desbancar a Disney nas animações para família. Isso ainda vai demorar um pouco. Quer dizer, eles são realmente bons nisso. Ambos estamos muito focados em edificar nossos grupos de animação e, bom, é uma competição amigável”, declarou Hastings.


(Montagem com personagens da Disney. Reprodução: Walt Disney Studios/ Adoro Cinema)


Ainda de acordo com ele, o ousado objetivo de superar a qualidade da Disney, vai aumentar o nível das animações. “Nós [Netflix e Disney] queremos criar histórias incríveis para os consumidores e queremos poder aumentar o nível dessa área. Nós sabemos que eles serão desafiadores e uma competição pelos próximos 50 anos”, disse o cofundador.

E para que esse objetivo seja possível de ser alcançado, a plataforma já revelou que pretende investir mais ainda em lançamentos de filmes de animação. Desta vez quem trouxe a informação foi o CEO da Netflix, Ted Sarandos, em uma entrevista ao Variety. “Nossa ambição em animação agora é ir para frente – estamos no caminho de lançar seis longas de animação por ano, algo que nenhum grande estúdio já fez”, explicou Sarandos.

O CEO não deu mais detalhes sobre como a plataforma de streaming pretende atingir essa marca tão ousada, e nem informou se os planos dizem respeito apenas a produções originais, não sequências ou também incluiu obras compradas de outros estúdios.

A Corrida já começou


(Cena de 'Klas'. Reprodução: Netflix)


Basta dar uma breve procurada no catálogo da Netflix, e será possível encontrar animações originais de peso. Quem não lembra, por exemplo, do sucesso de "Klaus", um dos maiores hits da Netflix no ano passado, tendo chegado a disputar o Oscar de Melhor Filme de Animação de 2019.

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Mas o que realmente está fazendo com que os fãs de animação, e até mesmo os especialistas da érea acreditarem muito mais nessa ideia de alcançar a Disney, é o já popular “A Caminho da Lua”, que estreou na plataforma no dia 23 de outubro deste ano.

A produção é comandada por Glen Keane, responsável por grandes animações da Disney, e um contador de histórias como poucos. Glen é visto como lenda viva por seu trabalho em vários clássicos da Disney como: "A Pequena Sereia" (1989), "A Bela e a Fera" (1991), "Aladdin" (1992), "Tarzan" (1999) e Pocahontas - O Encontro de Dois Mundos (1995), entre outros, além de ter faturardo um Oscar em 2018, com o curta “Dear Basketball. Um currículo impressionantemente invejável, e que agora, está a serviço da Netflix.


(Cena de 'A pequena Sereia'. Reprodução: Walt Disney Studios)


O rótulo de "lenda da Disney" (que Keane já recebeu oficialmente em forma de prêmio) é concedido para poucos, mas isso não dificultou a missão de criar uma história em outro estúdio. Glen obviamente respeita muito a magia da casa do Mickey, porém declarou em entrevista ao site UOL, que buscava uma nova fórmula para suas obras. Agora, depois de quase quatro décadas de Disney, Keane, antes animador, estreia como diretor de um longa.

O filme é uma coprodução da Netflix com o chinês Pearl Studio. A parceria mostra que, na busca para liderar a produção de animações, o streaming deve adotar uma das principais estratégias que deram ao serviço a alcunha de gigante, firmando acordos com outras produtoras, assim conseguindo fornecer um volume arrebatador de conteúdo, conquistando mercados e se expandindo.

A Caminho da Lua” parece ser, até o momento, a maior demonstração de força da empresa nessa prometida guerra dos filmes animados. O longa se apropria de uma fórmula que alçou vários dos desenhos da Disney ao status de clássicos. Com um visual estonteante e um formato que as pessoas já conhecem e amam.


(Cena de 'A Caminho da Lua'. Reprodução: Netflix)


A protagonista do filme é Fei Fei (voz original de Cathy Ang), uma garota que perdeu a mãe muito cedo. Quando descobre os planos de seu pai de se casar de novo, ela cria um foguete para viajar até Chang'e (voz de Phillipa Soo), a deusa chinesa da Lua. Ela espera que a lenda, nascida a partir de uma promessa de amor eterno, inspire o viúvo a mudar de idaia e continuar sozinho.

Referências e Instituições

Quando embarcou no projeto, Keane não imaginava o quão pessoal era o filme para Audrey Wells, que o roteirizou. A escritora levou o projeto à Netflix sem dizer que estava com câncer, já que queria que a animação fosse uma carta de despedida à filha e ao marido. Wells morreu em outubro de 2018, aos 58 anos, e nunca chegou a ver sua obra concluída.

O fator luto é uma temática usada com bastante frequência nas produções Disney. Seu primeiro longa, "Branca de Neve e os Sete Anões", já era ancorado numa protagonista órfã. Mas há outros pontos em comum com os clássicos no filme. Em “A Caminho da Lua” é possível ver uma heroína que deixa sua família para viver uma aventura, na companhia de criaturas fofas e que servem de alívio cômico.

Como se não bastasse, o longa é um musical, com direito até a uma música que serve de "coração do filme", como o próprio Keane definiu "Parte do Seu Mundo" para convencer os executivos da Disney a não cortarem a canção de "A Pequena Sereia". Em "A Caminho da Lua", a faixa que serve de alma da história e que expressa todos os desejos de sua heroína é "Vou Voar", que Fei Fei canta enquanto planeja sua ida à Lua.


(Cartaz de 'A Caminho da Lua'. Reprodução: Netflix)


Mas não só de fatores Disney vive o filme, as diferenças dos clássicos também compõem a obra. Fei Fei combina a inteligência para construir um foguete com a fé que a faz ver o que mais ninguém vê e acreditar, que uma deusa vive no lado mais escuro da lua. Bem diferente da maioria das animações que resolvem os problemas com magia.

A obra fala do luto através da música, diferentemente do romantismo presente em "A Bela e a Fera", por exemplo, "A Caminho da Lua" tem uma pegada mais pop, hip-hop e até k-pop. A figura da deusa da lua, parece uma versão oriental e cartunesca de uma diva do pop.

E essa fórmula tem funcionado muito bem, pelo menos no que diz respeito à audiência, pois, desde que estreou na plataforma, “A Caminho da Lua” vem alcançando a liderança do Top 10 das produções mais vistas na Netflix.
 
Com uma ampla campanha de marketing e a promessa de agradar pequenos e adultos, em um ano em que as animações da concorrência foram impedidas de chegar aos cinemas, fechados ou sem grande público por conta da pandemia, "A Caminho da Lua" é uma fração de uma série de apostas animadas da Netflix.


(Interface do Disney Plus. Reprodução: Quarta Parede POP)


Mas enquanto a Netflix se aventura pelas animações, a Disney também trilha um caminho para confrontar a gigante do streaming, investindo massivamente em sua própria plataforma on demand, o Disney+, que chega ao Brasil no dia 17 de novembro. Mas Keane pretende continuar pela Netflix, em que conta já desenvolver um novo projeto. Portanto a largada desta corrida, onde quem ganha é o público, já foi dada e os concorrentes estão a todo vapor.

As próximas animações originais programadas para estrearem na Netflix são: "Pinóquio" com Guillermo del Toro por trás do stop-motion inspirado no personagem que é queridinho da Disney. "Wendell and Wild", Henry Selick dirige o stop-motion, com produção de Jordan Peele e "Apollo 10½" com Richard Linklater como criador e diretor do filme.

 

(Imagem Destaque: Netflix e a corrida para superar a Disney nas animações. Reprodução: Netflix/ Disney. Montagem: Jonathan Rosa

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