Revista britânica ‘The Economist’ critica posição global do Presidente Lula

Em sua edição de domingo (29), a revista publicou que a política externa de Lula é hostil ao ocidente e apontou queda na popularidade do Presidente no Brasil

01 jul, 2025
Presidente Lula é alvo de críticas pela revista “The Economist” | Reprodução: X/@pedrorousseff
Presidente Lula é alvo de críticas pela revista “The Economist” | Reprodução: X/@pedrorousseff

Com o título “Presidente do Brasil perde influência no exterior e é impopular em casa”, a revista britânica The Economist elaborou uma análise sobre o cenário político brasileiro e a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reportagem afirma que Lula não apenas tem perdido popularidade no Brasil, mas também perde influência no mundo, na medida que tem adotado uma postura diplomática que se mostra “cada vez mais hostil ao ocidente”.

A revista se refere ao distanciamento brasileiro das posições defendidas pelos Estados Unidos, e por grande parte dos países ocidentais, em contraste com uma notável aproximação com nações como China e Irã. The Economist questiona a lógica por trás dessa estratégia, que, segundo a publicação, tem isolado o Brasil de seus aliados tradicionais e colocado o país em desacordo com democracias ocidentais.

A análise sobre a política interna e externa de Lula

Um exemplo emblemático citado pela The Economist para ilustrar a “postura hostil” do Brasil ao ocidente foi a reação do governo brasileiro aos ataques dos EUA a complexos nucleares iranianos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou uma nota condenando “com veemência” a ofensiva norte-americana, julgando que a ação colocava em risco civis, violava a soberania iraniana e o direito internacional. Conforme a revista, esse posicionamento coloca o Brasil em desarmonia com outros regimes democráticos do ocidente, que apoiariam apenas, ou expressariam sua preocupação.

Especialmente sobre a Cúpula dos BRICS, que acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de julho, a The Economist levantou uma questão: quão “não alinhado” o Brasil pode realmente se considerar, se referindo à China, à Rússia e ao Irã (incluso no bloco em 2024). Matias Spektor, da FGV, citado pela revista, reforça essa preocupação: “Quanto mais a China transforma o Brics em um instrumento de sua política externa, e quanto mais a Rússia usa o Brics para legitimar sua guerra na Ucrânia, mais difícil será para o Brasil continuar dizendo que não é alinhado”.

A revista chega a apontar que não há registro de encontro pessoal entre Trump e Lula, o que tornaria o Brasil “a maior economia cujo líder não apertou a mão do presidente norte-americano”, em contraste com a dedicação de Lula em cortejar a China e expandir laços comerciais com outros países.

Popularidade em queda e desafios políticos

A fragilidade do Brasil no cenário mundial, segundo a The Economist, é agravada pela queda na popularidade de Lula em casa. A revista observa que a política brasileira tem se inclinado para a direita, menciona o crescimento do cristianismo evangélico no país, e que uma parcela significativa da população ainda associa o Partido dos Trabalhadores (PT) a casos de corrupção do passado, levando os índices de aprovação de Lula ao nível mais baixo de seus três mandatos, com uma tendência de piora. Como exemplo concreto dessa fragilidade interna, usou a recente derrota do governo no Congresso, em sua tentativa de aprovar um decreto que aumentaria o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).


Nas redes, postagem defende que a derrubada do IOF não foi uma derrota do governo Lula, e sim do povo (Reprodução/X/@pedrorousseff)

Além disso, a revista destaca a afinidade entre o movimento “Make America Great Again”, liderado por Donald Trump, e a ideologia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A The Economist menciona a possibilidade da prisão de Bolsonaro por supostamente planejar um golpe para permanecer no poder após perder as eleições de 2022. No entanto, salienta que, se Bolsonaro escolher um sucessor e a direita brasileira se unir em torno dessa figura, a presidência poderia estar garantida para eles nas eleições de 2026.

A resposta do Itamaraty

Em sua conclusão, a The Economist observa que apesar dos recentes posicionamentos de Lula na política externa, o presidente norte-americano mal mencionou o líder brasileiro ou o país desde que assumiu o cargo, e que, essa indiferença pode estar relacionada ao déficit comercial do Brasil com os Estados Unidos, em que o Brasil importa mais do que exporta para os americanos. Contudo, a revista sugere que o silêncio de Trump pode ter uma razão mais profunda: “Mas seu silêncio também pode ser porque o Brasil, relativamente distante e geopoliticamente inerte, simplesmente não importa tanto quando se trata de questões de guerra na Ucrânia ou no Oriente Médio”. A revista também aconselha: “Lula deveria parar de fingir que importa e se concentrar em questões mais próximas”.

O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, não hesitou em se posicionar, enviou uma carta oficial defendendo veementemente a liderança global de Lula e sua “autoridade moral”, que, segundo o ministério, é “indiscutível para humanistas de todo o mundo”. A carta argumentou que não adota um “tratamento à la carte” em relação ao direito internacional, tampouco “interpretações elásticas do direito de autodefesa”, recusando a ideia de alinhamentos controversos. O Itamaraty reforçou que o Brasil condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, a favor de uma resolução diplomática para o conflito. Além disso, a nota destacou o posicionamento de Lula contra os negacionistas climáticos e sua denúncia da “irracionalidade de investir na destruição”, priorizando a luta contra a fome e o aquecimento global, uma agenda que o governo considera humanitária e progressista.

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