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Caetano Veloso sobre prisão na ditadura militar: Não chorava e não tinha nenhuma excitação

O cantor Caetano Veloso participou do programa "Conversa com Bial" e relembrou o pior momento de sua vida, quando estava preso durante a ditadura militar de 1964.

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05 Set 2020 - 10h07

O cantor foi perseguido e preso no dia 27 de dezembro de 1968

O documentário "Narciso de Férias" irá representar o Brasil no 77° Festival de Veneza na próxima segunda-feira (7). A obra conta a história do cantor Caetano Veloso (78), durante a ditadura militar, que ocorreu entre os anos de 1964 e 1985 no Brasil. O cantor baiano foi preso em 1968 e, em entrevista ao programa "Conversa com Bial", relatou o pior período da sua vida. 

Durante a entrevista, foi mostrado um trecho do documentário em que Caetano lê o relatório sobre suas acusações. "Cantor de música de protesto de cunho subversivo e desvirilizante”, dizia o documento. Sobre isso, o cantor opinou no programa de Bial. "A organização social tem uma base machista. Isso tem que ser mantido. Os conservadores se agarram nisso com uma paixão danada. Já naquela altura diziam que era desvirilizante como eu dançava. Eu não faço o número do macho. Aliás, você também não. Não tem jeito daquele machão, nós somos suspeitos".


Caetano Veloso durante a entrevista no programa

Caetano Veloso durante a entrevista no programa. (Foto: Reprodução/TV Globo)


Em seguida, Caetano Veloso contou como se sentia enquanto estava na prisão solitária. "Eu não chorava e não tinha nenhuma excitação sexual. Mesmo que eu buscasse, era impossível". Mas, o cantor chegou a ser transferido para outra sela e se sentiu melhor após essa mudança. "No terceiro estágio da prisão, fui transferido para os 'paraquedistas', e lá eu ficava sozinho em uma cela que tinha uma cama e um banheiro com chuveiro. Era como se fosse uma suíte. E com esse relativo bem estar, quando a Dedé [Gadelha] me visitava, foi que renasceu o desejo sexual", relatou. 

Caetano Veloso foi retirado da própria casa, na cidade de São Paulo, por agentes da ditadura e levado para uma sela solitária no Rio de Janeiro. O artista ficou preso por 54 dias e os jornais da época ficaram proibidos de divulgar a informação. Outro cantor preso no mesmo dia, 27 de dezembro de 1968, foi Gilberto Gil. 

 

Caetano Veloso desenvolveu superstições durante período em que estava preso 

O cantor afirmou que as lembranças da ditadura naõ foram embora. (Foto: Reprodução/TV Globo)

O cantor afirmou que as lembranças da ditadura naõ foram embora. (Foto: Reprodução/TV Globo)


Caetano Veloso revelou na entrevista com Pedro Bial que chegou a desenvolver superstições enquanto estava na prisão. O cantor afirmou que não se masturbava na prisão e explicou o motivo. "Seria a perda da energia que resultaria em uma possível soltura".

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Além disso, o baiano tinha superstições com baratas e uma música dos Beatles, que estavam ligadas com a sua situação na cadeia. "Me lembro nitidamente que 'Hey Jude' (composta por Paul McCartney) era a canção positiva; quando tocava através do rádio de um dos soldados, era sinal de que ia melhorar a minha situação. Já a aparição de barata, que até hoje eu tenho medo, era o pior sinal possível".

No entanto, Caetano Veloso ficou marcado pela música "Onde o Céu Azul é Mais Azul", de Francisco Alves. "Só de falar o nome dela eu já fico com vontade de chorar, e com pena da canção porque era muito bonita". O cantor ainda afirmou que não tem coragem de cantar esta composição hoje em dia.

Caetano foi solto em 14 de fevereiro de 1969, mas o período em que ficou preso é uma memória que o acompanha até hoje. "Parecia que nunca mais eu ia sair dali [da prisão] e que eu nunca tinha estado em outro lugar. Teve momentos na primeira fase que parecia que eu nunca tinha vivido o que eu vivi fora, e que a minha vida era aquilo e o resto tinha sido sonhos e fantasias que eu tinha tido", concluiu.

(Foto destaque: Caetano Veloso. Reprodução: TV Globo)

 

 

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