Redes sociais e sua influencia nos transtornos alimentares

Beatriz Ferrão - Publicado 22 de Oct de 2020 às 17:10
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Os transtornos alimentares mais conhecidos são: anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno compulsivo alimentar (TCA). Doenças de difícil tratamento e de alta morbidade. São caracterizadas por um padrão de comportamento alimentar gravemente perturbado, distúrbios da percepção do formato corporal e consequente controle patológico do peso. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 2,6% da população mundial sofre de TCA. O Brasil tem uma das taxas mais altas do mundo, 4,7%, quase o dobro da média mundial. Dados epidemiológicos similares são desconhecidos para a população brasileira, no entanto, a experiência clínica demonstra que esses transtornos têm prevalência significativa.

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O Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM), listou os fatores de risco para os TCA, que se desdobram em mais de 30 condições, onde podem ser classificadas de acordo com os seguintes subgrupos: Características demográficas (sexo, etnia, entre outras), Psicológicas (avaliação do peso corporal, imagem corporal negativa, baixa autoestima, entre outras) e Biológicas (peso corporal, entre outras). Além, dos riscos de acordo com os fatores predisponentes (aqueles que aumentam a chance do aparecimento dos transtornos): traços de personalidade, história de transtornos psiquiátricos, tendência à obesidade, alterações da neurotransmissão e eventos adversos. Os fatores precipitantes (aqueles que marcam o aparecimento dos sintomas): dieta e eventos estressores. E por fim, os fatores mantenedores (aqueles que determinam se os transtornos vão se perpetuar ou não): características fisiológicas, psicológicas e culturais.


A artista de Los Angeles, Jody Steel (22), usou apenas caneta e tinta preta para criar a incrível ilusão de ótica sobre os transtornos alimentares (Foto:Reprodução/Pinterest)


Uma doença influenciada pelas redes sociais

Essa expectativa de corpo imposto pela sociedade por meio das redes sociais, caracterizada por uma noção de perfeição ligada à magreza, acaba influenciando a imagem corporal, elemento essencial dos transtornos alimentares. Cabe ressalta, que o transtorno não se instala de imediato na pessoa portadora de TCA, e há um ritual diário reforçado pela necessidade desse indivíduo e não identificado pelas pessoas que estão a sua volta.

Após serem diagnosticados, eles passam por um processo lento e gradativo no comprometimento de sua saúde física, emocional e social. Seus tratamentos são intensos, repleto de desafios, sofrimento, perdas e rupturas. Onde geralmente, o paciente apresenta uma espécie de “negação” em ganhar peso. Algo ressaltado pelas crenças pessoais, muitas das vezes, onde são baseadas no fato de que “ser magro(a)”,estar magro(a)” é a chave para o seu sucesso pessoal, afetivo e social.

Sem qualquer intervenção, pode haver um agravamento da situação, levando em casos extremos como a morte. Quanto mais cedo ocorrer a intervenção médica, mais chances o indivíduo portador de TCA terá para retomar suas atividades diárias.

Qual o tratamento indicado para essas doenças

Dentre os diversos tratamentos existentes, há o Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O primeiro centro brasileiro multidisciplinar para o tratamento, ensino e pesquisa na área de transtornos do comportamento alimentar. Teve o início de suas atividades no ano de 1990. O atendimento padrão consta em ações multidisciplinares, com reuniões de equipe, que ocorrem semanalmente, para obter a definição das diretrizes a serem adotadas para cada paciente. Dentre os tratamentos estão:

Atendimento Médico: O primeiro contato do paciente é com o psiquiatra, que realiza a entrevista de triagem visando ao diagnóstico diferencial. Nesse procedimento, são realizados os registros relacionados ao histórico médico e psiquiátrico e o motivo principal da procura.

Atendimento Nutricional: O atendimento nutricional tem como objetivos: recuperar e/ou manter um peso adequado, estabelecer padrões alimentares saudáveis, minimizar as práticas alimentares inadequadas e os comportamentos inapropriados para controle de peso e melhorar as atitudes alimentares e os distúrbios de imagem corporal.

Atendimento Familiar: Ocorre em grupos psicoeducacionais, por meio de orientação, informação e troca de experiências, com a participação dos familiares e dos pacientes em tratamento. A inclusão e a participação efetiva da família são uma peça fundamental na eficácia terapêutica, já que a psicodinâmica familiar é a maneira como a família funciona, sendo assim, um elemento central na determinação, manutenção e desenvolvimento dos TCA.

Atendimento Psicológico: Baseado na terapia cognitivo-comportamental (TCC), onde tem como objetivo estudar a mudança do comportamento alimentar e do uso de estratégias compensatórias (vômitos, abuso de laxantes, diuréticos e enemas). Esse atendimento pode ser dividido em três áreas:

1- Normalização da alimentação e do peso;

     2- Reestruturação cognitiva relacionada aos sintomas visados na conduta alimentar;

     3- Reestruturação cognitiva de temas psicopatológicos que, direta ou indiretamente, estão relacionados ao desenvolvimento ou à manutenção do transtorno alimentar.


Insatiable”, série da netflix que retrata assuntos como o transtorno alimentar (Foto:Reprodução/Youtube)


Ficção x Realidade

A série “Insatiable” da plataforma de streaming Netflix, conta com a história de Patty (Debby Ryan), uma menina obesa que sofre bullying na escola. Depois de um dia onde tudo dá errado, é chamada de gorda por um mendigo que quer tomar seu chocolate. Ofendida, acerta um soco em seu nariz, recebendo em troca outro que quebra seu maxilar. Forçada a uma dieta líquida durante a recuperação, fica magra e, incentivada por seu advogado Bob, decide se dedicar ao circuito de concursos de beleza para se vingar de todos provando o quanto ficou bonita. Porém, ela perde a linha com a atenção recebida pela beleza recém-descoberta e se sente exatamente tão insegura quanto sempre foi.

Na vida real, a atriz e cantora Demi Lovato, lançou em 2017 o documentário “Simply Complicated”, onde fala sobre a sua jornada lutando para ficar sóbria e saudável, tanto física quanto psicologicamente. A intérprete de “Sober”, música pela qual faz uma série de desabafos aos seus familiares, amigos e fãs, relata que durante algum tempo, teve complicações em relação a comida: “É tão estranho falar sobre isso na frente das câmeras. Eu tive uma recaída e acabei vomitando há algumas noites”. Confira o documentário:


                                     

                             Simply Complicated”, uma jornada de luta para ficar sóbria e saudável (Foto:Reprodução/Youtube)  


TCA x Covid-19

Outro caso recente, foi o da atriz e cantora, Cléo Pires,que já passou por um período de TCA e recentemente usou as redes sociais para falar sobre o agravamento de transtornos alimentares na quarentena. De acordo com a postagem da atriz, "para quem sofre ou já sofreu distúrbios alimentares, esse momento está sendo um grande gatilho, então eu desejo força para seguir com tratamento, se você estiver fazendo, força para não se julgar, força para buscar ajuda”.

Segundo a FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), a mudança brusca na rotina e o estresse diante do isolamento social causado pelo novo coronavírus, têm como consequências o agravamento de distúrbios psicológicos e, consequentemente, dos transtornos alimentares, como a compulsão alimentar, a anorexia e a bulimia.

O transtorno alimentar mais comum é a compulsão alimentar, relacionada ao sobrepeso e, muitas vezes, à obesidade. Onde, por sua vez, é um dos fatores de risco para o agravamento da Covid-19, levando à necessidade de hospitalização, assim como outras condições de risco associadas, como diabetes e hipertensão. Isso significa dizer que, em pacientes obesos, as chances são aumentadas de a infecção se desenvolver rapidamente para a síndrome respiratória aguda grave, insuficiência respiratória aguda e outras complicações.

 

(Foto destaque: Redes sociais e sua influencia nos transtornos alimentares. Reprodução/Pinterest)

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