Falem bem ou falem mal, mas falem de Ratched

Publicado 16 de Oct de 2020 às 18:46

A série da Netflix Ratched vem dando o que falar. Lançada em setembro, o seriado de Ryan Murphy é baseado no longa Um Estranho no Ninho, de 1975. Na verdade, o criador destacou uma personagem em questão e direcionou os holofotes para ela. E esse alguém é a enfermeira Mildred Ratched.

No filme, a história da enfermeira não é aprofundada, deixando espaços para especulações sobre o passado e suas reais ambições. No entanto, Murphy sacia a nossa curiosidade e mergulha no universo de Ratched.

Para quem é habituado aos trabalhos do criador/produtor, consegue enxergar de cara os seus toques estéticos e a fotografia pensada milimetricamente. Vivacidade de cores, contornos e uma sonoridade dos clássicos de terror. Lembra de American Horror Story e Glee? Pois é, são dele. Então pode esperar morte, muita morte, loucura, gente estranha e experimentos um tanto sufocantes.

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Ratched em uma cena dos tratamentos contra o lesbianismo. (Foto: Reprodução/IndieWire/Netflix)


Ainda no início do seriado, Murphy a apresenta de maneira misteriosa, com a língua afiada e um tanto perspicaz. A sensação é que Ratched é cruel e usa meios peculiares para exercer sua maldade. De fato, não é que não use, mas há uma desconstrução da personagem de forma lenta e gradual – por vezes, quase imperceptível.

A história começa com Ratched, interpretada por Sarah Paulson, indo a um hospital psiquiátrico em busca de um emprego, e é rejeitada na primeira visita. No entanto, isso não a impede de buscar formas de conseguir o emprego, ela consegue e rapidamente torna-se a enfermeira-líder do local. Sim, suponho que ache estranho esse início e com certeza é!

Seu irmão Edmund Tolleson (Finn Wittrock) após assassinar padres a sangue frio é levado para o mesmo hospital, enquanto aguarda o julgamento que pode acabar com a sua vida: a pena de morte.

A introdução do irmão de Ratched traz a abertura para entender a história da enfermeira-líder. Ambos passaram por muito sofrimento e as consequências desse passado são abordadas do início ao final da trama. Aliás, o plano de fundo da história e o ponto chave do desenrolar é a relação sexual de um padre com uma mulher, abandonando-a e gerando uma série de problemas. O fruto disso foi justamente Edmund, irmão adotivo de Ratched.


Edmund é o irmão adotivo de Ratched. (Foto: Reprodução/Netflix)


Paulson e Wittrock atuam impecavelmente, fazendo-nos duvidar da sanidade dos dois. O nível de toxicidade dessa relação dolorosa, ao mesmo tempo tão próxima. Murphy dá o pulo do gato, quando muda essa relação doentia no final da temporada.

Há toda uma rede de conexões no seriado e Murphy consegue explorar bem. Temas bastante atuais, controversos, mesmo na ambientação de 1940. A suposta cura do lesbianismo, a politicagem em investimentos públicos, o dever moral e ético das religiões, a forma desrespeitosa de tratamentos médicos. O diretor consegue englobar tudo isso num pacote dramático, medonho e que te faz oscilar se defende a enfermeira e outros ou não.

Embora Ratched protagonize a série, todos os demais coadjuvantes têm o seu lugar indispensável. O grande quebra-cabeça é montado pouco a pouco revelando virtudes dos personagens e até mesmo redenção.


(Vídeo: Reprodução/YouTube)


Há quem diga que o autor pesou a mão nos personagens e criou algo muito louco. Não digo que não, mas talvez valha olhar num ângulo diferente esse toque de terror, loucura, personagens estranhos e fora de padrão para descontruir o que achamos que deveras ser o formato do gênero. Em Ratched, tudo é questionado, se eu apoio alguém insano, eu sou insana também?

 

Bem teremos que aguardar a possível segunda temporada (ainda não confirmada) para responder ou não essa dúvida. Enquanto isso, prepara a pipoca, assiste o trailer e fique pronto para maratonar. 

(Foto Destaque: Ratched. Reprodução/Radiotimes/Netflix)

 

 

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